domingo, 15 de novembro de 2015

MEMÓRIAS DE UMA CINTA DE CHARUTO

Branco foi meu nascimento e das cores do arco-íris me vestiram para identificar um charuto. Representei uma casa de família e fui retrato de personagens mundiais. Durante a minha função, abracei, como se fosse um anel de noivado, um robusto charuto. Estava desempenhando o meu papel quando senti o calor incandescente das folhas que ardiam silenciosamente, comprimidas, até que fui salva pelas mãos do fumador. Nuvens de fumo envolviam o espaço, criando um compromisso entre o sonho e a realidade, despertando prazeres voluptuosos entre o fumante e os outros. 
Agora, já na idade de reforma, alojada num classificador, gozo pacientemente o merecido repouso. Convivo com outras cintas, de países e fábricas diferentes, e, apesar das diferenças, em particular a linguagem, somos iguais. Depois de uma vida curta no desempenho, com profissionalismo, do trabalho que me foi confiado, vivo numa expetativa excitante de ser objeto de troca com outras cintas, viajar para outro lugar, conhecer outras cintas e outros colecionadores. 


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

OLHARES



Haverá certamente cintas de charuto, prisioneiras em gavetas, em caixas de sapatos, outras adormecidas coladas em folhas de papel, envelhecidas pela poeira do tempo, outras ainda esquecidas ou abandonadas até que a memória as descubra ou algum intruso as encontre.

Privadas da sua função, identificar e embelezar os charutos, algumas vivem na esperança dum lugar de honra no colecionismo, quiçá em participar num concurso de beleza. No entretanto, mantêm uma relação de namoro constante com o seu possuidor.

À falta de novas cintas, futuras companheiras e missionárias, as cintas que já ocupam lugar privilegiado nos classificadores, vão beneficiando dos olhares constantes de quem as protege e as admira, o colecionador.

Na descoberta da origem das cintas clássicas, reside a sua identidade, caraterizada pela antiguidade, raridade, origem, estado de conservação e traços anatómicos. Mas apesar de serem as mais procuradas e valiosas, convivem lado a lado com as mais modestas, sem preconceitos, independentemente da sua filiação e nacionalidade.

Todas são importantes na perspetiva de quem as coleciona, catalogadas numa variedade de temas, entre os quais os retratos de personagens mundiais, fauna, flora, desporto, brasões, bandeiras e barcos.

As séries marcaram uma época. Ab initio, meados do século XX, focando reis, imperadores, políticos, militares, presidentes; mais tarde, desabou uma tempestade folclórica de temáticas diversas, saídas das “maternidades” espanholas, holandesas, belgas, alemãs. Hoje, as séries estão praticamente em vias de extinção. As empresas tabaqueiras deixaram cair a sua impressão litográfica ou por falta de novos temas ou, o mais provável, por razões financeiras.       

sábado, 30 de maio de 2015

IN ILLO TEMPORE


Não sou fumador ativo, mas na adolescência fui atraído pela degustação do tabaco, uma atitude que transforma os rapazes em homens. À falta da nicotiana tabacum, também serviram, nessa época, as barbas de milho. Dos cigarros ao cachimbo foram experiências. Mais tarde, os charutos, namorei-os e um ou outro lá fui degustando em dias ou noites de festa. As cintas de charuto foram um amor à primeira vista e há décadas que as vou colecionando.
O colecionismo em geral, refiro-me à filatelia, à numismática, à vitolfilia, ao filumenismo, à glucofilia, aos postais ilustrados, porta-chaves, pins, cromos, etc., parece ser uma coisa de velhos, os jovens têm outros voos. Primeiro é preciso gostar de aprender e aprender a gostar, depois é partir para a descoberta, pesquisa e catalogação. É o encontro com a história, a (re)descoberta de aspetos desperdiçados ou ignorados. Aberto o caminho para o (re)conhecimento do material no universo histórico, paralelamente torna-se relevante a relação humana dos contatos com outros colecionadores.
 
O tabaco, de uma maneira geral, tem servido para muitas coisas. In illo tempore, os Astecas consideravam que o sumo do tabaco era um antídoto contra o veneno das cobras e os Maias atribuíam-lhe poderes milagrosos. Parece, pois, que o uso do tabaco começou com fins medicinais. No primeiro milénio a C.,os indígenas da américa central usavam a planta em rituais religiosos e mágicos, como forma de purificar, fortalecer e proteger os guerreiros das tribos. No século XVII, o cientista alemão Johan Neander (1585-1650) publicou estudos sobre os efeitos terapêuticos do tabaco, considerando a sua utilização benéfica para a cura de vários males.  


Em rapé (cheirado ou mascado) e fumado, o tabaco passou por diversas vicissitudes. Em relação aos fumantes, Filipe II de Espanha (1527-1598) ordenou, em documento oficial, que a folha de tabaco fosse queimada em público como erva prejudicial e danosa. Jean NIcot (1530-1600), embaixador francês em Portugal, enviou a Catarina de Medici algumas sementes de tabaco da América para serem plantadas, cultivadas e usadas como remédio para gargarejo e vomitório e recomendou o tabaco como uma coisa boa para fazer inalações e servir de dentífrico.  
Passados vários séculos desde que os marinheiros de Cristóvão Colombo, Luiz de Torres e Rodrigo de Jerez, descobriram a planta de tabaco, fumado pelos homens-chaminés, na América, que a planta tem proporcionado muito trabalho e dinheiro.
Existe uma vasta bibliografia sobre o tabaco. Relativamente às obras literárias, saliento Fumo Sagrado, do escritor cubano Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), Bahia – Terra de Todos os Charutos, um retrato das empresas brasileiras, de Hugo Carvalho e O Tabaco e o Poder, da escritora portuguesa Maria Filomena Mónica. Relativamente às teses de mestrado, cito Versos, Cinzas e Havanas: um estudo sobre o charuto no romantismo brasileiro, de Raquel Ripari Neger e As Charuteiras  do Recôncavo Baiano, de Elisabete Rodrigues da Silva.

sábado, 7 de março de 2015

APANHADA DO CHÃO

Sentado numa esplanada, desfrutando os raios de sol de inverno, vislumbrei um fumador de charutos, que acompanhado degustava, com prazer, um belo charuto. Claro que o que me atraiu não foi a linguagem do charuto nem o seu cheiro. Naquele corpo, roliço, feito de tabaco, cujo fumo envolvia o ambiente, o que despertou a minha atenção foi a cinta de charuto.

Envolvendo a peça, a cinta, indiferente à aproximação do fogo, parecia esperar o momento oportuno par fugir àquele incêndio. Assim pensei.

Iniciei então uma caminhada para baixo e para cima, esperando que a cinta fosse salva. Na última passagem, tendo perdido de vista o espaço, fui surpreendido com o desaparecimento do fumador e do charuto. A tristeza invadiu o meu rosto pela perda da oportunidade em deitar mão àquela cinta. Aproximei-me da mesa, palco e cenário da tragédia e, olhando atentamente para o chão, uma luz iluminou a cinta que jazia. Aproximei-me e recolhia-a. Era um Bolivar, fotografia do general sul-americano, protagonista das guerras de independência das colónias espanholas da América do Sul.

Tinha salvo a cinta de charuto e o meu dia.  

domingo, 16 de novembro de 2014

CRISE VITOLFÍLICA… OU TALVEZ NÃO

Já lá vai o tempo em que as fábricas alemãs, belgas, espanholas e holandesas emitiam séries de cintas de charuto, desenvolvendo várias temáticas, num número variável de peças em cada série. Não eram, certamente, cintas de grande qualidade litográfica, mas abordavam aspetos descritivos históricos, políticos, artísticos, sociais e económicos.


A crise europeia, a vários níveis, terá contribuído decisivamente para o entardecer vitolfílico com a cessação da produção das cintas de série, por parte das empresas tabaqueiras.  
Mas, fechada esta grande porta, abriram-se algumas janelas. Refiro-me à proliferação de cintas oriundas de fábricas sediadas na República Dominicana, na Nicarágua e nas Honduras. Não são, evidentemente, cintas clássicas com retratos de personagens mundiais, políticos y membros de casas reais, litografadas em “pan de oro”, nem séries, mas apenas cintas simples, vistosas e coloridas, focando aspetos diversos. 
Sobre a qualidade dos charutos que as cintas documentam, não opino porque não sou fumador, deixo essa tarefa aos especialistas e apreciadores. Sou simplesmente um vitólfilo.     

sábado, 12 de abril de 2014

Muñeca de La Perla

A fábrica mexicana de charutos La Perla foi fundada em 1898 por Andrés Corrales,  natural de Santa Eulalia de Cabranes (Astúrias, Espanha). O primeiro nome comercial da fábrica foi Andrés A. Corrales, passou depois a Andrés Corrales y Cia, resultante de uma sociedade com várias personagens das quais se destaca José Madrazo, tendo na época passado da cidade de Vera Cruz para a cidade de Xalapa.

A fábrica começou a funcionar com noventa e nove marcas adquiridas por Corrales, emtre elas La Violeta e La Rica Hoja.
Relativamente à “Muñeca de La Perla", segundo o vitólfilo valenciano José Pascoal Badelles,  trata-se de Emiliana de Alencon (1870-1946), artista de variedades de Paris, que se iniciou no Circo de Verão, em 1889, quando tinha dezanove anos, juntamente com Agustina Otero Iglesias, dita Carolina Otero “La belle Otero” (1868-1965), natural de Pontevedra (Galicia, Espanha)  e Liana Pugy, fazendo então parte do trio da moda nessa época.
A escolha do retrato de Emiliana para representar a marca La Perla poderá ter sido um atributo à beleza da artista ou como hipótese na sequencia da viagem que Andrés Corrales fez a Paris, onde conheceu a diva, com quem teve , eventualmente, um romance.  Verdade ou não, certo é que o retrato da “muñeca” foi figura emblemática da marca de charutos La Perla.

No que se refere às series, o vitolário das marcas La Perla, La Rica Hoja e La Violeta, ainda que reduzido, contribuiu para valorizar a vitolfilia, cuja cotação é alta.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

SANSÃO


A força muscular define-se como a quantidade que um músculo, ou grupo muscular, consegue gerar de força máxima num padrão específico de movimento numa determinada velocidade. 

Força é um dos conceitos fundamentais da Física newtoniana, relacionada com as três leis de Isaac Newton (1643-1727), cientista inglês, é uma grandeza que tem a capacidade de vencer a inércia de um corpo modificando-lhe a velocidade ou a direção. 

Sansão, juiz de Israel (Século XII a.C.), de acordo com a sua descrição na bíblia hebraica, foi um homem nazireu, filho de Manoá, nascido de mãe estéril e que liderou os israelitas contra os filisteus. Distinguiu-se por possuir uma força sobre-humana que, segundo a Bíblia, era-lhe fornecida pelo espírito do Senhor. Subjugava facilmente os seus inimigos e produzia efeitos não alcançáveis por homens comuns
 De acordo com a descrição bíblica, Sansão apaixonou-se por Dalila, uma mulher do povo filisteu. Os governantes filisteus, sabendo da paixão de Sansão pela filisteia Dalila, aliciaram a jovem com 1100 moedas de prata, para que descobrisse a origem da sua força invencível. Há várias versões sobre como Dalila veio a saber que a força provinha do seu cabelo. A filisteia terá cortado parte do cabelo a Sansão que, entretanto, foi dominado pelos soldados a quem perfuraram os olhos e prenderam com algemas. Exposto e humilhado publicamente foi amarrado a dois pilares do templo. Ajudado por Deus, num esforço titânico, fez ruir os pilares do templo e todos pereceram.